O desconhecido na língua estrangeira.
Por que é menos desesperador ver uma palavra desconhecida na língua materna do que ver uma palavra desconhecida em língua estrangeira?
Estava aqui dando uma lida no meu agregador de RSS e fui clicando nas notícias. Aquelas em inglês eu batia o olho e na primeira palavra estranha eu desistia e ia para a próxima notícia. Aquelas em português, mesmo que eu não soubesse o que significava o termo, seguia na leitura.
Já tenho uma boa jornada com inglês, e sei que com paciência eu saco o significado das palavras na hora. Um dicionário médio também serve. Ainda assim, tenho muita resistência a ler nessa língua. Não sou capaz de dizer agora se o mesmo acontece em outras línguas que aprendi.
Será que isso acontece só comigo? Duvido.
@[email protected] talvez seja hábito conseguir ler algo em outra língua espontaneamente? Já vi algumas pessoas ao longo dos anos, eu incluso, que entendiam outras línguas, mas evitavam interagir por preguiça (um inclusive admitia isso abertamente "<.< ).
Imagino que, se for esse o caso, o esforço de ter que mudar a forma de raciocinar seja o problema. Daí uma coisa que eu sugeriria é “viver a língua”, isso é, mergulhar na língua de forma à parte instintiva do cérebro não conseguir achar rota de fuga.
No meu caso por exemplo, inglês eu me obrigava por causa dos meus objetivos, mas espanhol tive que encontrar alguém disposto a conversar comigo na língua para eu pegar o hábito, e norueguês e japonês me pegam muito no vocabulário, o que me desanimava bastante, daí ajudou eu fazer uma seleção de músicas nessas línguas já que a audição é mais difícil de filtrar do que a visão.
Daí uma coisa que eu sugeriria é “viver a língua”, isso é, mergulhar na língua de forma à parte instintiva do cérebro não conseguir achar rota de fuga.
Ah, mas então… Eu meio que já vivo imerso no inglês. Eu gostaria inclusive de ter contato com materiais de outras línguas. Talvez o que falte é isso mesmo que você me sugeriu de forçar a mente a “pescar” o significado ou mesmo ignorar o vocábulo para ver depois. É o que eu faço às vezes em português.
A minha questão mesmo é: por que me sinto mal de ignorar uma palavra incógnita em inglês, mas não me sinto em português?
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Isso me lembrou de um fenômeno que vira e mexe me ocorre: vejo uma palavra em um idioma, penso em ver o significado traduzindo pro outro idioma, apenas pra me deparar com uma palavra traduzida que também não conheço ainda. “O que significa essa palavra que está em inglês?”, traduzo pra português, “ok, mas o que significa essa palavra em português?”.
Isso me ocorre na direção oposta também, com situações onde já descobri o significado de uma palavra em português através de outra em inglês (por mais bizarro que pareça pra minha nacionalidade brasileira)
Pra mim, inglês e português se tornaram meio que interchangeable, principalmente depois que arrisquei escrever poesias e estórias em inglês. Em algumas situações, me sinto mais confortável escrevendo em inglês; noutras, me sinto mais confortável em português. Em partes, a necessidade do uso de certas palavras e figuras de linguagem influencia qual idioma escolho pra expressar um pensamento, porque algumas figuras de linguagem que costumo usar não existem no outro idioma, ou não da mesma forma.
Exemplos: “hopefully” não é exatamente “por sorte” ou, pelo menos pra mim, sei lá, não sinto que expressam a mesma coisa da mesma forma, embora sejam sinônimos. Já conceitos mais via negativa de não-coisa como “the land where there’s no land and there’s no there” soa melhor no nosso duplo negativo lusofono “o lugar nenhum onde não há lugar”. Também, ditados do português, mesmo quando têm equivalentes em inglês, não são a mesma coisa, então acabo incluindo uma frase em português como citação dentro do texto em inglês.
Porém, muito do meu vocabulário são mais termos que não pertencem a nenhum dos dois idiomas, como (o exemplo que me veio de momento) “Kafkaesco/Kafkaesque” (qualidade do que se assemelha à burocracia retratada nas obras de Kafka). Tem muitos outros exemplos de vocábulos inclusive languageless da minha cabeça bagunçada, mas não lembrei a tempo pra incluir nessa resposta.
Por fim, também tem palavras (geralmente epítetos e nomes transcendentais) que me parecem melhor expressas em outros idiomas (ex.: espanhol e aquele meme “¿Por qué no los dos?”) nos quais não sou fluente. Alguns desses idiomas sequer são possíveis a fluência, como sumério e egípcio (ambos em suas formas transliteradas): pra mim, “nínna” e “ntrt” soam melhor que dizer “deusa” ou “goddess”. Latim também: “Ordo Ab Chao” e “Chao ab Ordine” é melhor pra falar do que “ordem através do caos” e “caos através da ordem”, idioma no qual cheguei a também cunhar uma frase que segue as regras gramaticais, “Vita mortem manducat, Mors manducat vitam” (“a vida devora a morte, a Morte devora a vida”).
Mas eu diria que é produtivo conhecer símbolos, palavras e frases em outros idiomas, mesmo quando não se espera fluência ali, mesmo quando sequer se espera usar. Porque isso instiga um “rewiring” no cérebro, e os pensamentos se tornam mais “language-agnostic” (independente de idioma).
@dsilverz @batepapo @arlon Latim traduzido pro português seria especialmente ruim em livros de fantasia. O latim é importante.
O mistério da linguagem é muito grande, as palavras tem as origens mais diversas. Às vezes uma palavra em inglês tem uma origem na Rússia ou nos povos eslavos; às vezes vem da Constantinopla.
É tudo muito variado e isso soma ao mistério como, por exemplo: “Por que as pessoas escolheram esta frase/palavra deste local pra se expressar?” É tudo muito misterioso.
Acho que isso conta quando ao expressar uma palavra em português, inglês ou latim. Porque a palavra em português tem um contexto cultural diferente do inglês que tem um contexto cultural diferente do latim.
É difícil, porque o inglês, ainda mais por ser expansivo, está sempre no estado da arte da linguagem e com uma cultura muito complexa. Mas nada substitui a diversidade cultural do Brasil, mesmo que não seja valorizada.
É uma incógnita, na minha opinião.
É difícil, porque o inglês, ainda mais por ser expansivo, está sempre no estado da arte da linguagem e com uma cultura muito complexa. Mas nada substitui a diversidade cultural do Brasil, mesmo que não seja valorizada
Acho, acho, que toda língua é em maior ou menor grau expansiva, mas a gente percebe mais a “expansividade” do inglês porque, primeiro, todos estão de olho nessa língua, e, segundo, o inglês tem uma veia muito metalinguística.
Há memes em inglês que são pura metalinguagem. Isso é raro em português, esse humor metalinguístico. Eu vejo isso mais nas ruas e na canção, não na internet. A expansividade lusófona é sutil e poderosa. Ainda quero ver o língua portuguesa transformar-se em linguagem.
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Perfeitas colocações, exatamente!
Já cheguei a tentar explorar, embora como um total leigo nessas áreas, conhecimentos referentes à linguística, etimologia e coisas como reconstrução Proto-Indo-Europeia e Proto-Afroasiático, além da standardização da fonética humana exercida por ferramentas como IPA (International Phonetic Alphabet). Os idiomas costumam ter uma ordem para convencionar termos para as cores, com o vermelho sendo uma das primeiras cores entre todas as linguagens humanas. Termos esses que diferem a lot: rouge x vermelho x hóng x krasniy x ahmar x outras variações. Vou tentar incluir um screenshot de anotações pessoais que fiz nesse sentido.
Também, o único caso de um fenômeno trans-linguístico, uma palavra que têm a pronúncia igual ou similar não importa o idioma, é “mãe”: (praticamente) todos usam sons labiais como /m/. Diz-se que é o primeiro som mais complexo que um recém-nascido consegue vocalizar (mas por que não sons como “nhá”, “aiá” e “uá”, que um recém-nascido faz antes do mesmo de um “má-má”, é um mistério).
Também, tem tanta palavra que a gente usa no dia-a-dia que a gente raramente pára pra pensar no significado. Por exemplo, “tchau” é um termo que era usado para sinalizar continuidade de servidão por parte de um escravo ao escravagista, “quarto” e “quarteirão” provavelmente vieram da divisão dos casarões, entre outros termos (“Canhoto” e “sinistro” tendo conotação de fundamentalismo cristão, associando pessoas canhotas à influência demoníaca; “demônio”, por sua vez, foi “demonizado” da palavra grega Daimos que signfiicava “espíritos” sem necessariamente conotações ruins/negativas).
Até o nome Brasil, diz-se que veio de “barzel” (ברזל) para “ferro” (a madeira pau-brasil tem um vermelho similar ao do óxido de ferro), e as inscrições fenícias na Pedra da Gávea apontaria para uma atividade extra-nativa no território brasileiro que antecederia a de Pedro Álvares Cabral.
Por fim, muito foi perdido. Tabuletas foram perdidas, pela destruição do tempo ou pela destruição dos próprios humanos (exemplo: guerras que destruíram artefatos históricos). Muita coisa sobre o distante passado jamais será sabido, no máximo, teorizado. Dá certa tristeza quando penso isso, porque, por exemplo, há todo um conhecimento pré-sumério registrado em artefatos e pinturas rupestres poderiam complementar um entendimento de como o conhecimento atual passou a sê-lo, mas uma quantidade inimaginável desses artefatos e pinturas foram perdidos pra sempre.

@dsilverz @batepapo @arlon Os arqueólogos Gabriela Martin e Varnderley de Brito acreditam que as inscrições na Pedra da Gávea foram feitas por intempéries naturais.
Acredito que essa seja a visão da comunidade científica global também. Algo difícil de mudar. Vai ficar parecendo que você está falando da Usina de Energia do Antigo Egito.




